domingo, 12 de janeiro de 2014

Cuidar do outro

Cuidar é antes de tudo um ato de amor.

Oferecer o seu tempo e parte da sua vida para outra vida.
É fazer o outro rir se ele está triste.
Animá-lo, se está pesaroso.
Cuidar do outro é segurar na sua mão, com carinho.

Nem sempre o outro é gente.
Pode ser uma planta, um animal, um ambiente.

O mais difícil cuidar é cuidar do todo.
Não que ele dependa de nós tanto assim;
Mas nós também somos o todo.
Então, nós precisamos cuidar de nós mesmos para cuidar do todo.
Para cuidar do todo, precisamos cuidar de tudo.

Até escolher uma palavra pode ser cuidar.
Porque as palavras podem ferir; e não desejamos abrir novos ferimentos.
Alguém vai precisar cuidar deles.
Não abrir ferimentos é cuidar da nossa fala,
Cuidar do nosso pensamento, da nossa intenção.
Quantas vezes agredimos o outro, apenas falando?
A língua é a faca e a intenção é o estoque.

Cuidar não é viver pelo outro. Ninguém pode viver pelo outro.
A cada um a sua pena, o seu caminho e a sua cruz.
Cuidar pode ser uma pena, um caminho, uma cruz.

Quando cuidamos de alguém estamos nos cuidando também.
O bem que recebemos é maior do que o que oferecemos.

Mas como é difícil cuidar, realmente, com o devido amor!
Às vezes um ato repetitivo, mas não amoroso.
Atencioso, mas só quando nos interessa.

Como é difícil cuidar!

Cuidar sem sentimento de amor não é cuidar.
Amar o outro implica em ter amor por você.
E quanto mais amor, mais poderá dividir e dedicar.
Amar o outro é muito difícil, especialmente quando não desejamos amar.

Mas basta um toque de bom sentimento, 
E o amor brota qual encantamento.

Cuidar é amar.

(RRS, 12 jan. 2014)

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Caminhar


Colaborador Roberto Rocha

Não basta que existam mil caminhos,
Nem mesmo somente muitos pés sozinhos,
Pois o fato, depende da vontade:
O caminhar, com ou sem sapatos.

E bem mais que apenas a matéria,
Com suas árvores, seus enfeites, couro, saltos;
O que se precisa mesmo nessa hora,
Vem lá de dentro, mas não vem de fora,
Em algum momento dessa nossa vida.
E acontece quando tiver que ser!

Longa ou breve na sua jornada,
A criatura precisa ser testada
Em sua coerência e seu discernimento.

Vagando em trechos claros e escuros,
Volta e meia encontramos muros;
Uns muito altos, outros quase chão.

Com os pés sangrando e as tiras finas,
Vamos dobrando cantos e esquinas,
Vencendo lamas, pedras, buracos, valas.

E eis que chegando perto,
Faltando atravessar só um deserto,
Do destino, alguém nos oferece água.  
E profetiza: você já cumpriu uma grande jornada!
 Descanse um pouco, nobre peregrino!
Repouse à sombra, desfrute do abrigo.
Mantenha a esperança e o amor contigo,
Que Ele o guiará até o fim da estrada...

domingo, 15 de dezembro de 2013

Respeitar a natureza é respeitar os nossos ancestrais



Colaborador Roberto Rocha

Sempre que qualquer pessoa deixa de ser gente e volta a ser ambiente, do ponto de vista material, vem a idéia de associar a natureza aos nossos ancestrais. Quem são eles? Onde estão agora? Se a Lei de Lavoisier estiver correta, então eles continuam por aí, em milhões de pedaços moleculares, nos corpos dos passarinhos, dos vermes da terra, das bactérias, de outras pessoas, nos rios, no ar e onde quer que seja possível existir a natureza. Num momento em que até mesmo o respeito pelas pessoas vivas torna-se um grande sacrifício, entendo que pensar em ancestrais pulverizados pelo mundo possa ser algo quase impossível de desejar e perceber. Mas é assim que funciona! Nossos ancestrais estão mesmo por aí, nos depósitos de sedimentos da geosfera, nos gases da atmosfera, dos rios, dos oceanos e dos corpos de seres, os mais diversos.  Quando são "enterrados" em campos próximos de onde sempre moramos, esse ritual tem um significado muito sagrado. É como se tudo que plantamos, colhemos e comemos fossem um pouco de parte deles voltando a circular entre nós. Daí a água e o alimento dessa terra serem sagrados e venerados. É como se estivéssemos outra vez na presença deles. Eles voltam a fazer parte de nós. É como o leite que faz crescer a criança nos primeiros dias de vida. É uma doação imediata. Só as mães possuem esse sentimento de "construção" com amor. Quando nos referimos à Terra como mãe, é nesse sentido que estamos falando. Ela nos nutre com os nossos ancestrais e dos corpos mineralizados de tantas outras criaturas que já não estão entre nós com suas formas convencionais. Nem todos os povos podem perceber isso com a devida rigorosidade. Somente aqueles que são nativos ou indígenas é que podem vivenciar esta experiência. Mesmo assim, terão dificuldades se forem alijados de suas terras e afastados por diversos motivos, menos os sagrados. Fica difícil para um exótico ou alienígena entender esse processo; tal como ocorre com os brasileiros de genética européia morando no Brasil. Por exemplo, os meus ancestrais são portugueses. O pó e a água dos seus corpos estão por lá. Pode ser que eu volte a ter contato com algum deles, caso coma ou beba alguma coisa importada de Portugal, próximo das terras onde eles viveram. Quem sabe um vinho? Um azeite? É aquela antiga explicação que fala do retorno ao pó. Mas não estamos falando de qualquer pó. São os nossos ancestrais que podem estar representados nele. É a certeza de que existe algo sagrado e respeitoso sempre que formos beber a água de um córrego, comer um fruto ou respirar o ar de nossa terra natal. O fato de termos invadido uma terra que era de outros, não nos deixa clara a necessidade de cultuarmos a natureza como algo santo. Talvez isso explique o descaso pelos nossos rios, pelas nossas florestas, pelos nossos animais nativos - que foram substituídos pelas criaturas do Norte, hoje espalhadas por todos os biomas do país, incentivado pelo lucro alto e um PIB gordo, alimentado por pasto também exótico farinhado. Talvez as próximas gerações de brasileiros compreendam o que os "índios" sempre priorizaram: o respeito aos ancestrais e à natureza que é feita deles também. Se não aprendemos a respeitar a vida em geral como algo sagrado, quem sabe possamos ver o mundo diferente se tivermos alguma consideração pelos nossos ancestrais mais recentes, mesmo sendo eles pobremente representados por duas ou três gerações apenas. O que pensar dos indígenas autênticos da terra que tinham aqui o pó de milhares de anos de ancestralidade? E a maior parte deles foi exterminada por motivos econômicos. Me sinto um pouco cúmplice dessa realidade, embora o momento em que isso ocorreu talvez fosse justificado por outras razões, as mais coerentes. Mas não adianta "chorar leite derramado"; mas cabe sim  uma profunda reflexão sobre esses fatos. Para que não nos tornemos máquinas de carnes insensíveis, estimuladas por outras máquinas, computadorizadas, desprovidas de sentimento e de passado. Apenas vivendo momentos, forjados, artificiais, decompromissados.

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Luzes e sombras




Sou um caçador de almas, de formas e de movimentos.

Do que o tempo congela em breves momentos:
do nascer, do crescer, do amar.
Paralizar algo paralizante.
Espaços, fatos e cores;
Sorrisos e raivas; desapegos e amores.


A natureza em ação!
A força dos ventos e dos oceanos.

O arrebentar a semente, as borboletas pelo chão.

Os pássaros multicores, os frutos e as flores.


Parar a vida num clique: mas não qualquer clique!...

Um que faça brilhar olhos, e que alegre o coração.

Que fale mais do que mil palavras,
Que não discrimine o pobre e nem o xingue.

Todos iguais, num mesmo plano.
Como se fosse a última canção.

Num irretornável festejar de fim de ano,
Ou num último bater do coração...
(RRS, 6 jan. 2013)

sábado, 2 de novembro de 2013

A cruz do outro

Não carregue a cruz do outro!
Apenas ajude a confortá-lo...

Não carregue o peso que não é seu!
Mas ajude alguém a aliviá-lo...

Não chore por alguém que partiu!
Recorde os bons momentos...

Não lamente os maus encontros!
Você fez parte deles...

Não reclame da vida!
Ela sempre foi sua...

Use o tempo para o bem,
Porque o mal sempre está atento.

Não julgue o que não sabe:
Palavras enganam!

Procure ver com os olhos da alma,
Porque a visão ocular pode nos enganar!

Não sinta inveja do alheio,
Aprenda com quem faz direito.

Não carregue o mundo nas costas,
Ele é muito pesado!

Sorria sempre que possível,
Nenhum mal dura eternamente!

Seja otimista com você mesmo,
O mundo vive muito ocupado!

Fale com Deus sempre que puder,
Ele entende você mais do que ninguém.

Nunca deixe de corrigir seus erros,
Porque eles sempre vão nos ensinar.

Seja um bom aluno, aplicado.
E jamais deixe de estudar.

Mestre não é aquele que ensina.
Mestre é o que aprende ao ensinar...

(RRS, 6 out. 2013)

sábado, 29 de junho de 2013

Vivo, energizado, pensante.

 
Eu sou ambiente vivo, energizado, pensante.
Bolha dágua falante, andando por aí.
Meus gases se misturam dentro e fora.
Eu troca com a atmosfera a cada hora:
Inspiro, expiro, respiro.
 
Sou DNA de fósforo circulante;
Do guano branco das ilhas Cagarras,
Das aves predadoras oceânicas;
Dos peixes comidos e descartados.
 
Sou carbono das plantas de carvão;
De seus cadáveres que fabricam aço
Com as montanhas de ferro mineral.
 
Os meus ossso são feitos do calcáreo
Que o intemperismo forjou pela erosão.
  
Tenho inveja das plantas leguminosas,
Que fabricam suas folhas tão gostosas
Com as moneras amigas, generosas.
 
Mas eu vivo matando criaturas
Para moldar meu corpo plastificado.
Minha estrutura proteica organizada.
 
Mas apesar de tanta transformação,
Possuo alma, tenho sentimentos!
Falo com Deus!
Com as águas e com os ventos,
Com as montanhas, com os rios, oceanos...
 
Meio sagrado e também meio terrestre,
Às vezes pó, às vezes celeste;
Bem diferente de tudo mais,
Das muitas plantas e dos muitos animais,
Eu sei que "sou" em vez de "apenas ser".
Eu sinto a força e a energia.
 
Sou instrumento de uma inteligência,
Inexplicável, através do espaço.
 
Eu sou um "todo" mesmo sendo parte,
Uma verdadeira expressão da arte,
Sou a intenção de um amor multivagante.
 
Sou breve sopro que a brisa sopra.
Numa espiral eterna e sagrada.
Sou todas as coisas numa só coisa.
Mil posições na imensidão do nada.
 
(RRS, 29 jun. 2013)

sábado, 20 de abril de 2013

Queimando o pavio



Nossa vida é um pavio que queima (se manifesta) sem parar desde que nascemos, e que apaga-se (desliga-se) quando desfazemos o nosso compromisso dual. Não sabemos por quanto tempo nosso pavio queimará, sejamos jovens ou não. Mas aprendi - depois de muitos anos de experiências diversas - que a vida é algo sagrado, e precisamos valorizá-la cada momento, em cada respiração. Entre o momento em que o ar preenche os nossos pulmões, e até uma nova inspiração, é como que morrêssemos provisoriamente. Não temos nenhuma certeza de que voltaremos a fazê-lo com o mesmo êxito. Apenas uma forte esperança de que isso aconteça. No entanto, nos acostumamos com esse ato e não prestamos atenção para um  simples e tão importante detalhe. Mas existe sim uma interrogação: vou respirar outra vez? Ou melhor: vou continuar vivendo? Meu pavio continuará a queimar ou se apagará?  Nesse breve intervalo, entre o inspirar e o expirar, está toda a nossa vida. Todas as nossas memórias; todas nossas conquistas e frustrações. Após o retorno da inspiração, ganhamos mais um momento; e a certeza - agora sim - de que ainda permaneceremos por mais algum tempo nesse mundo de relações diferenciadas. E o que você faz a cada momento que a vida lhe é oferecida com uma dádiva? Que qualidade você atribui à queima do seu pavio vital?  Ele queima com nobreza? Queima com bom humor? Com alegria? Com entusiasmo? Com honestidade? Com bondade? Com sabedoria? Com humildade? Com desapego? Com generosidade? Com amor? Se a resposta é sim, então: bravo! Você sabe queimar o seu pavio com inteligência. Ou será que você não costuma valorizar cada momento que respira, e vive atormentando a você mesmo e aos outros? As atribulações da vida vão sempre existir, porque a próprias natureza - que é sagrada - tem também seus momentos de instabilidade. Mas perceba que é para uma renovação. E logo tudo volta ao equilíbrio, à homeostase. Precisamos sim interferir regularmente com algumas ações, e elas gerarão novas respostas e reações. Reação é agir outra vez conforme cada solicitação que nós é apresentada. Não devemos agir como insensatos e desatentos. Precisamos sim nos preocupar em queimar nosso pavio com uma atenção especial, e não como uma queima qualquer. O medo do futuro não é uma sensação ruim. Ele nos sinaliza para evitar inconsequencias, às vezes drásticas. Devemos aprender com ele mas não permitir que nos domine. Quem deve ficar no controle somos nós, mesmo em sua presença! Eu também tenho os meus medos; e nem por isso deixo de viver a vida. Fantasias e sonhos exagerados podem nos decepcionar, mas somos nós mesmos os seus incentivadores porque passamos dos limites do bom senso e da coerência. A vida é uma oscilação de ações e reações. Se entendermos isso seremos mais felizes dentro de um quadro geral que almejamos com  projeto de vida. Acho que já passei da metade do meu pavio, com 67 anos de idade incompletos: a não ser que eu viva mais de 120 anos! Com certeza, cada vez mais, me preocupo com a qualidade de queima do meu pavio. Se estou no metrô ou num ônibus, aproveito cada momento, em vez de apenas "esperar chegar até o fim da linha".  Eu leio um livro interessante. Observo as pessoas ou falo com elas. Planejo o meu dia. Olho as árvores e tudo que possa representar a natureza selvagem, se ela existir por perto. De modo algum vou queimar o meu pavio remoendo mágoas e dores. Relembrando sofrimentos do passado e ódios retidos. Telefonar para ameaçar ou bajular alguém. Disseminar mentiras e engôdos. Se eu não zelar pela queima do meu pavio, quem o fará? O passado já queimou! Não voltará mais! O futuro mais interessante é o que está ocorrendo aqui e agora, na queima do meu pavio, nesse momento. E você: como está queimado o seu pavio? Desejo-lhe uma boa queima...

(RRS, jan.2013)