sábado, 23 de março de 2013

O laço e o nó.


Num dia de muitos embrulhos, o laço perguntou para o nó:
como vai você amigo nó?
Ao que o nó respondeu: estou firme como sempre!
E você, como vai?
Vou mais ou menos, respondeu!
Como assim, mais ou menos?
É que eu sou um laço!
Não posso viver apertado demais. Esse é o meu destino...
Se estiver muito firme, deixo de ajudar as pessoas.
Quando alguém faz um laço é porque não deseja apertá-lo:
é uma questão objetiva
Ora! Retornou o nó: quem vai desejar algo frouxo?
O laço respondeu: depende de cada caso; já imaginou um presente todo amarrado e todo reforçado?
A ansiedade de saber o que um pacote contém não quer empecilhos pelo caminho. Muitos nós só adiariam o grande momento!
Os laços não impedem o acesso ao presente, mas também não deixam de resguardá-lo e mantê-lo seguro.
É mais delicado! É mais gracioso! É mais simples!
Ora, ora. ora !
 Mas ninguém quer um embrulho mal feito, disse o nó.
O laço continuou: mas eu não disse que o presente estava mal embrulhado!
É que o momento pede algo não tão rigoroso e radical.
É isso: uma questão de conveniência!
Se eu apertar muito, não serei mas um laço, eu serei um nó!
Eu preciso cumprir o meu papel aqui e agora: ser apenas um laço.
Não estou aqui para me gabar do quanto sou firme ou forte.
Sou apenas um pequeno detalhe na vida de duas pessoas:
a que presenteou e a que recebe o presente.
Minha felicidade maior está em permitir e facilitar este momento mágico da doação, do carinho e do amor.
É assim que eu sou feliz!
Pode ser que um dia alguém me transforme num nó. 
Se assim tiver que ser, eu terei uma outra missão, e não serei mais um laço.
Quem sabe eu até me acostume com a idéia e com o meu novo objetivo?
Por enquanto, desejo apenas ser um laço, envolvendo presentes; sendo feliz nesses breves momentos de alegria e de satisfação.
Não me entenda mal, amigo nó! Ambos somos importantes, mas cada um deve entender o seu papel nesse contexto.
Siga apertando e eu sigo afrouxando.
Você, para garantir que alguma coisa não se abra facilmente;
e eu, facilitando o acesso ao que quer que seja.
É por isso que sou diferente no que faço:
você é um nó, e eu sou um laço... 
(RRS, jan. 2013)

sábado, 2 de março de 2013

O construtor de pontes

 
Era uma vez um construtor de pontes que havia dedicado boa parte de sua vida a ligar pontos de difícil acesso por cima de rios. Estava no meio da ponte olhando sua última obra quando um transeunte o reconheceu e lhe perguntou: o que está admirando? A sua obra? O rio? A resistência da ponte? Ou apenas medita sobre tantas outras pontes que deverão ser construídas? Ele desviou o olhar do infinito e disse: eu não construo pontes para ninguém! Não sou dono da obra e nem sei por quanto tempo ela resistirá ao tempo e às mudanças. Muitas pessoas acham que quem constrói uma ponte tem todas as certezas do mundo e que detém a segurança de que ela não vai cair um dia ou que poderá ser ameaçada. Não é bem assim! As pontes não são construídas por uma única pessoa. São milhares e milhares delas a contribuírem para uma mesma obra. Basta uma falha num setor importante e a boa intenção inicial pode se transformar em uma onda de frustrações e desentendimentos. Nós apenas tentamos seguir a coerência histórica das construções. Isso não significa que elas serão sempre coerentes. Onde existir mais de uma pessoa sempre poderá haver discordâncias. E tanto mais discordâncias quanto mais radicais forem os argumentos. Mesmo nas discordâncias precisa haver coerência. As pontes podem ser feitas de diferentes materiais e nem por isso podemos dizer que sejam frágeis. Existem pontes de raízes de grandes árvores que podem durar centenas de anos, e outras feitas de aço que podem não resistir a um século. Tudo é muito relativo e depende de outras conjunturas que podem influenciar de forma decisiva o destino de uma ponte. O que conta mesmo é a boa vontade e o desejo de que ela possa servir para ligar pessoas e nações. Os outros detalhes podem não ser tão relevantes. Você conhece uma ponte mais perfeita do que a que liga as pessoas pelo amor? As pontes que ligam as pessoas pelo perdão? As pontes de compreensão? Elas não são feitas de concreto. São feitas de gente. Depende apenas de decisões em nossas mentes. Quando se luta por uma convicção e uma certeza, corremos o risco de enfrentar outras convicções e certezas iguais ou maiores que as nossas. Talvez em lugar de convicção devêssemos valorizar a reflexão de cada um, sem uma doutrina dirigida e condicionada. Se for verdade que cada um de nós possui uma parte sagrada, porque não confiar com fé que ela nos mostrará o caminho da coerência tão procurada? O caminho da paz, da sensibilidade pelo outro como criatura de Deus, e não exatamente por sua ideologia. Devemos construir pontes para todos, indistintamente. Não devemos exigir passaportes especiais para quem deseje atravessá-la. As pontes precisam de uma liberdade responsável. E a liberdade é algo inerente e próprio de cada um. Não pode ser negociada, nem vendida e nem alugada. É um direito universal. Se desejamos construir pontes universais, há que respeitar a liberdade de cada um para escolher como deseja atravessar a ponte, e quando deseja fazê-lo. Também não devemos inquirir sobre as suas razões de travessia. São motivos particulares. É praticamente impossível que todos tenham as mesmas “certezas” sobre qualquer coisa do mundo. Cada pessoa, ela mesma, já é um mundo. Como controlar mundos dentro de mundos? Como convencer a cada um que os meus argumentos são melhores do que os deles? Por que a razão deve estar somente comigo? Se nós viemos das poeiras estelares, então isso quer dizer que todos nós somos estrelas. Temos os mesmos direitos de brilhar e de se apagar quando chegar a nossa hora. Por que não brilhar todos juntos, cada um com sua luz própria? Por que tem que ser somente com a minha luz? Que caminho desejo eu iluminar? Será o meu desejo o mesmo desejo de todos? Brilhemos todos juntos! E a luz vai ser tão forte que eu não duvido que o próprio Deus se apresente a cada um de nós, de uma forma especial, tocado pela espetacular prova de humildade e de compreensão da humanidade. Hoje, pode ser apenas um desejo. Mas qualquer mudança precisa de um desejo inicial. De uma vontade. De uma intenção. Então, construiremos a ponte mais perfeita do mundo. Um construtor de pontes de rios é apenas um construtor de pontes de rio. Construir pontes de almas é algo bem mais complexo. Eu estava aqui pensando justamente isso: o quanto sou limitado nas minhas obras. E pensar que as pessoas me conhecem apenas pelas pontes sobre rios. Que bom que eu soubesse como construir pontes verdadeiras que ligassem realmente as pessoas, e não exatamente apenas locais. Talvez a obra mais difícil seja acessar o interior das pessoas. Mas isso seria bem mais fácil se elas mesmas desejassem isso com muito amor, de livre e espontânea vontade...
 
(RRS, 27 fev. 2013).
 

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Pirotecnia


 
O mundo passa por uma tremenda transformação. Nossos próprios sentimentos mais íntimos e sagrados não são mais valorizados como manifestações de êxtase e realização plena. Nossas luzes interiores não conseguem competir com a parafernália tecnológica de cores e efeitos diabólicos. O silêncio interior é coberto ruidosamente pelas distorções sonoras. A graça do movimento corporal educado foi substituída pela loucura drogada dos gestos desequilibrados. Que pena! A ilusão dos olhos e dos sons nos tomou de tal forma que parece que perdemos a nossa dignidade humana e o respeito a nós mesmos. Tornar-se artificial? Cultuar o ilusório e o efêmero? É isso que chamam de “alegria”? Que tristeza! Em nome de que adjetivo pode ser justificada a perda da vida? Por que temos que ampliar as nossas percepções naturais através de buscas inéditas e chocantes? Por que não perseguir um novo estilo de vida, mais “zen”, mais calmo, menos tumultuado? Precisamos retornar ao culto interior de nossa alma. Não nos deixar iludir nem ser anestesiado com motivos muito além de nossa sensibilidade equilibrada. Até quando vamos continuar a sermos cúmplices de insanidades orquestradas? Deveríamos nos unir nesse momento não somente para chorar ou orar; deveríamos refletir sobre a necessidade pensada de mudar essa loucura que é o mundo atual, cheio de apelos e fantasias por demais ampliadas. Por que não valorizamos a calma, a serenidade, o silêncio respeitoso? Podemos ter músicas e danças nesses eventos. Mas não qualquer música e não qualquer dança.  Mais qualidade e menos futilidades. Mais do que fiscalização e de regras de segurança, precisamos de medidas morais urgentes. Não existem incompatibilidades entre o cantar, o dançar, o brincar e o divertir-se. Mas resta perguntar: que tipo de canto? Que dança? Que brincadeira? Que diversão?  A juventude é um período maravilhoso, mas pode se transformar num pesadelo inesquecível! Acordar é preciso, desse sonho entorpecido pelo pós-modernismo deslumbrantemente enganador e equivocado. Por quanto tempo ainda?
RRS, 28 de janeiro de 2013
 

sábado, 29 de dezembro de 2012

Os solitários


 
Os solitários aprenderam a amar a solidão.
Não quer dizer isso que não tenham coração
para discordar, repartir, reconstruir.
 
Solitários assumem ser solitários.
 
Por breves tempos,
 por longos tempos,
 toda uma vida.
 
Alguns fecham feridas:
as suas, dos outros, do mundo...
 
Solitários podem amar de verdade!
Percebem a feiura e a beleza;
São sensíveis à alegria e à tristeza:
pessoas, bichos, natureza...
 
Solitários gostam de ficar a sós.
Se é um estilo de vida, não sei!
Já vi estilos mais esquisitos!
 
O que é ser esquisito?
Não ser aceito pela sociedade?
 
Prefiro ser solitário!
Os solitários podem ser pessoas muito alegres,
divertidas e muito interessantes.
Curtem de um modo diferente:
a calma,
o silêncio,
a meditação.
 
Nesses momentos tão sagrados,
ser solitário é uma obrigação.
 
Longe do mundo, distante,
procura ouvir  o inaudível,
ver o que um olho não vê.
Sentir mais que a sensação.
 
Podemos ser o solitário que quisermos,
no tempo e do jeito que entendermos!
 
Só não podemos perder a esperança.
Não se iludir em visões equivocadas.
Não ter medo de atravessar estradas,
mesmo nervosas e loucamente tensas.
 
Eu sou um solitário consciente.
Eu gosto de conviver com gente.
 
Se você é também um solitário,
Guarde um tempo para repartir comigo.
Falar da vida, abrir nossos corações.
 
Os solitários curtem a felicidade,
apreciam boas amizades,
nos intervalos de suas solidões...
 
 
(RRS, 29 dez. 2012)
 
 
 
 

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

O mágico de nós

Na busca de compreensão eu estou.
No lamentar a desigualdade desigualada.
Na constatação das injustiças justificadas.
Na percepção de cérebros intoxicados,
incoordenados pelo álcool,
pelas drogas vistas,
pelas drogas assimiladas.
 
Dos jovens que fogem de si mesmo e do mundo.
21 é o século dos desafios!
Dos véus caídos, dos aturdidos, dos transtornados.
Acordar, e tentar dormir de novo, sonambulizado.
 
Mas fórmulas mágicas globais não existem!
Acredito nos mágicos que formulam: cada caso é um caso!
Uma poção para cada um.
Quantas dessas mágicas precisamos?
Quanto tempo para preparar cada mistura?
Quanto tempo dura cada uma?
 
Melhor que cada um fosse o seu próprio mágico...
Com sua própria bebida curativa.
Que cada um fechasse a sua própria ferida,
num processo mundial de salvação.
 
Substituir as indiferenças disfarçadas.
Fingir que não se percebe, percebendo,
em atitudes evasivas, calculadas.
 
Desejar estar vivo, mas morrendo.
Que futuro esse, transformado?
A utopia existe e eu a quero.
O caos existe, nós no meio;
Porque não aceitar o imprevisível?
 
Se cada um salvar apenas um alma,
que seja a sua própria, com urgência!
 
Seremos todos um só mar de assistidos,
cada gota zelando por sua própria gota,
modificando a sua própria essência,
na busca pela paz, pelo amor, pela querência.
 
Então meu prezado mago:
 
Pegue a sua varinha!
Coloque a sua cartola!
Comece a fazer suas mágicas!
Não importa o que vão dizer!
Importa apenas fazer.
 
E o mundo também será mágico:
Faça um teste com você...
 
(RRS, 15 dez. 2012)
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Das lâminas, das pontas e dos territórios.



Existe uma fauna que não vive nas florestas do passado.
Somente em espaços concretados; cada indivíduo, lacrado.

Existe uma fauna que não vive num brejo, num rio, ou num lago.
Uma que não mora nos mangues.
Uma outra que até frequenta as praias.
Costões rochosos, só muito raramente.

Essa fauna passeia pelos mares e oceanos.

Não gosta de desertos fumegantes.

Sente-se mal nas grandes altitudes.

Enterrada no solo? Só com a morte, ou mesmo em pó!

Não curte viver entre folhas mortas, no folhiço, chão da floresta.

Esta fauna está em todos os lugares.
Inventou formas de estar em todos eles.

É a fauna humana!

Não existiam humanos no passado.
Só a fauna dos não-humanos.

Com a nossa chegada ao mundo, nós o desconcertamos.

Nossas ferramentas naturais, unhas e dentes,
Foram todas reprocessadas.

Atirar um galho, ser barulhento, gritar mais alto e arrepiar.
Lascar uma pedra cortante, forjar pontas, superfícies.
Manter o animal distante, quem sabe um inimigo,
Melhor usar uma lança: se corre menos perigo...

Mas a flecha vai mais rápido, mais letal, vara guiada.

Abater presas e estranhos, unhas chatas, dentes rombos:
Que proeza! Não sou carnivoro!
Matadores quase perfeitos, com armas adaptadas.

Seria só para alimento? Que outros usos inventamos inda mais?

Comer só por comer é bem monótono...
A palavra chave é TERRITÓRIO! Nosso mais importante objetivo!

A ONU existe por causa de territórios. Os países também.
Os Estados, idem. Nos municípios não é diferente.
Vivemos em territórios-bairro. E os bairros são territórios-rua.
As ruas são territórios-casa. As casas são territórios-cômodo.
Cada cômodo tem um local que preferimos.

Nós mesmos, somos territórios ambulantes.

Quando estamos na presença de um outro homem,
Nós desejamos, inconscientemente, defender nosso território.
Nosso corpo, nossa mente, nossso gestos, nossas palavras.

Não será qualquer um que ocupará meu território!
Vou examinar cada detalhe! Saber qual o motivo da invasão!

Se somar territórios for interesssante,
Quem sabe, podemos até nos entender?

Buscamos vantagens, segurança, reprodução.
Mais água, mais alimento, mais energia, e...

Mais território!

Amar uns aos outros quer dizer: compartilhar territórios.
Não só entre homens, mas com tudo que viva.

Um mundo sem territórios? Uma utopia ou uma esperança?

Eliminar pontas e garras? As lanças e as flechas? Os furos e os cortes?

O que será do metal viajante perdido na cidade?
O cano fumegante, mecânico ou digital?
A ogiva que limpa territórios imensos?

Mostre os dentes para o inimigo!
Não se aproxime!
Sou agressivo e poderoso! Veja como olho nos seus olhos!

Se insistir, vamos lutar! Que vença de nós dois, quem for melhor!

Mas eis que surge uma idéia! Vamos fazer o seguinte:
Eu arranco cada dente meu; e voce, cada dente seu!
Também arranco cada garra minha; e voce, cada garra sua!

Desdentados e desgarrados, vamos ter uma longa conversa.
Quem sabe, ao final de tudo, possamos viver sem armas?

Mas como será depois? Como justificar a segurança?
A paz, o entendimento, o perdão, a bondade, a justiça,
A tolerância, a amorosidade?

Vamos ter que reprocessar tudo de novo.
Uma nova humanidade, um novo ser.

Enquanto isso, vamos tentando a cada dia,
Antecipar um pouco o que seria
Esse nosso sonho, essa utopia...

(RRS, 19 out. 2012)

































domingo, 25 de março de 2012

Sonhos de um pingo dágua


Quisera ser eu um simples pingo dágua,
Morando no oceano, bem fundo,
Longe das atribulações do mundo:
 Calmaria o dia inteiro !
Mas eis que sou um eterno viajante,
Frágil e esquecido passageiro,
Nessa rota curta,
Descendo a serra, serpenteando.

Nesse meu rio que nasce na montanha,
Vou me enrolando, pelas pedras, espumante.
Me despencando, desabando aqui e ali;
Às vezes brusco, às vezes me acalmando.

Mas sei muito bem da minha sina:
Devo parar com esse meu sonho delirante !

Brevemente, vou me diluir...
Com outros pingos que descem pelos vales,
Seguindo cada um, o seu destino,
Até deixarmos de correr sozinhos,
Sermos um só, na imensidão sem fim.

Vou me envolver com muitos outros pingos,
Ser oceano como no passado,
Certamente, um pouco mais salgado,
Por entre as ondas, com gosto bem ruim.

Mas, tenho certeza, um dia serei lembrado!
E outra vez, faço o mesmo caminho!
Vou viajar nas nuvens com o céu nublado;
Retornar doce, mais uma vez enfim.

Voltar com a chuva,
E escorrer nos troncos,
Cair do alto no chão de uma floresta.
É bom ser pingo nessa imensa festa...

RRS, 25 mar. 2012